domingo, 7 de outubro de 2012

Rio de Janeiro, 05 de Abril de 2010 – Segunda – Feira.


Dia que essa inusitada e surpreendente história de amor começou.

Hoje eu fui com a minha irmã à Defensoria Pública no Méier, como o funcionalismo público no Brasil é lento e obsoleto chegamos em casa às 17h30 (E pior, não conseguimos resolver nada). Escolhi a roupa, lingerie, bijuterias, sapato e arrumei a bolsa. Fiz um lanche, tomei banho e me arrumei. Saí de casa às 18h30 (Atrasadíssima). Está chovendo muito e o começo da rua onde moro está alagada (Parece um míni piscinão). Ao tentar passar molhei o sapato, meia e calça (Ai que ódio! Saí de casa limpinha e cheirosinha, vou chegar à faculdade um lixo. Parece que saí do filme Náufrago).
Fui para o ponto de ônibus da Estrada Velha da Pavuna pegar o 492, pois é bem mais rápido que o 908. Fiquei esperando, havia um engarrafamento e não passava nenhum ônibus (Incrível, é só cair um pingo d’água para o Rio de Janeiro ficar intransitável. Ninguém merece!). A chuva aumentava e diminuía (Chovia mais dentro do meu guarda- chuva do que fora, também quem mandou comprar em camelô, Made in Taiwan). Ventava muito (Ai que horror! Daqui a pouco verei uma vaca voando).
Às 19h30 eu já estava com muita raiva e decidi voltar para casa (Na aula de hoje não vai ter nada importante e além do mais será bom não ter que aturar a falta de educação do professo Waldemar Magnavita, que homem peste!). Atravessei a passarela do Metrô e vi um ônibus 908 parado no ponto. Desci rapidamente os degraus da escada e fiz sinal para o motorista não ir embora (Gente, que coisa louca! A minha intenção era ir para casa, mas não sei o que me deu).
Entrei no ônibus e ao sacudir o guarda- chuva para tirar a água e guardar na sacola bati no rapaz que estava subindo atrás de mim. Pedi desculpa (Ai que mico! Sou muito estabanada). Dei boa noite ao motorista, agradeci por ter esperado e paguei a passagem. O motorista me cumprimentou e deu um sorriso maravilhoso. O meu coração disparou e pensei: “Nossa que rapaz lindo. E eu parecendo um pinto afogado”. Passei na roleta, esbarrei num rapaz e pedi desculpa (É hoje!).
Apesar de o ônibus estar cheio eu consegui um lugar no fundo, sentei e tentei me secar (Como eu gostaria de entrar numa secadora gigante, aí já aproveitava e fazia uma escova). Fiquei pensando, tentando lembrar se já vi o motorista na linha (Não consegui lembrar, acho que entrou água na minha placa de memória). A chuva aumentou, parece que o Mundo vai acabar. Quando chegou à Grota o que se via era o prenúncio do Inferno. A água que descia das ladeiras e morros formava ondas e numa rua tinha um redemoinho (Parecia um grande ralo de pia).
Vi vários carros e ônibus enguiçados. A água também entrava pelas janelas do ônibus mesmo estando fechadas (Ótimo! Vou morrer aos 25 anos, afogada e virgem. Isso não é justo, sou muito jovem). Não sei como, mas passamos ilesos (Parece que o motorista é surfista). O ônibus foi esvaziando e eu pude ver o motorista através do espelho retrovisor (Nossa que olhar!). Quando chegou a Ramos, em frente ao Mercado Mundial havia um engarrafamento (É hoje!). Não subia nem descia veículos, no ônibus só tinha duas passageiras e eu. Levantei e sentei perto da porta (Se alguma coisa acontecer eu quero ser a primeira a sair). O motorista disse que vais ver o que está acontecendo e saiu. 
Quando voltou contou que um caminhão virou na rua em frente a estação de trem de Bonsucesso e não tem previsão de retirada (Ótimo, vou ter que dormir dentro do ônibus? Eu mereço! Mas pensando bem, passar a noite ao lado do motorista lindo seria bem interessante). O motorista avisou que vai pegar um atalho e uma senhora falou que por aonde ele quer ir está alagado, pois veio de lá.

Ele saiu novamente e nós ficamos conversando. Falei que estou indo para a faculdade, a senhora disse que está voltando do mercado e a moça contou que está indo encontrar um rapaz (Ai que inveja! Há muito tempo não tenho um encontro romântico).  O motorista voltou com um pacote de biscoito e um copo de Guaravita. Ofereceu o biscoito e aceitamos (Eu não queria o biscoito, mas um contato com ele. Aliás, não gosto de biscoito de baunilha, mas comi assim mesmo). A senhora do mercado se despediu, desceu e foi andando

Se não estivesse chovendo tanto eu também iria, mas o meu guarda- chuva não vai aguentar (Ah tá! História para boi dormir, quero enganar quem?). Ficou a moça, o motorista e eu conversando sobre a chuva. A moça e eu contamos as nossas histórias. O motorista disse que se chama Renato, tem 26 anos e mora no Méier (Que coincidência, estive lá hoje). Falou que cursa Educação Física na faculdade Gama Filho da Piedade. Contou que se forma no final do ano e quer prestar concurso para a Polícia Federal de Brasília (Nossa tão longe?).

Renato comentou que trabalha na Vila Real há três anos e no 908 vai completar um ano (Ah, por isso eu não o reconheci. Deve ter começado assim que tranquei a matrícula na faculdade). Falou que mora com os pais, a irmã é advogada e o pai é coronel aposentado da PM (Agora sei de onde vem o desejo dele de ingressar nas forças armadas, ficará muito bonito de farda). Disse que tenho cara de ser casada, eu sorri e respondi que não. Conversamos sobre MSN e Orkut, peguei na bolsa caderno e lapiseira.
Ele deu o e-mail do MSN e falou que o seu nome é Renato Silva. Disse que por ter o nome muito comum não conseguiu fazer e resolveu usar o Gasparzinho como nome, pois os seus colegas de faculdade colocaram esse apelido nele por ser bem branquinho (Hum realmente parece). Falou que não lembra o e-mail do Orkut, mas depois me dá (Vou vê-lo outras vezes?). Comentou que vai desligar o motor senão o ônibus ficará sem diesel (Só me faltava essa, ficarmos sem combustível). Pulou a roleta e desligou.
Quando voltou sentou atrás de mim e ficamos conversando com a moça sobre o encontro dela. Renato disse que o encontro não era para ser, falei para ela não dar ouvidos a ele (É vidente por acaso?). O seu celular tocou, ela atendeu e disse que é o rapaz com quem vai se encontrar (Ele deve estar preocupado com a demora dela). Fiquei conversando com o Renato e perguntei por que o casal não combinou de se encontrar no final de semana, ele respondeu que motel durante a semana é mais barato (Cruzes!).
A moça falou que o carro do rapaz caiu no valão, mas ele não se machucou (Nossa imagina o susto. Graças a Deus não aconteceu nada). Contou que o rapaz está com a perna engessada (E o pervertido do Renato achando que eles iam para o motel, como ele vai transar? É contorcionista?). Renato queria que a moça entregasse o celular para falar com o rapaz (É louco né? O que iria dizer para o rapaz? Iria melar ainda mais o encontro dela). Colocou uma música para tocar no seu celular e mostrou as fotos da mesa do seu computador (É rosa, muito linda).
Conversamos sobre a época que foi pára-quedista, ele disse que saiu do quartel porque não conseguia chegar cedo. Perguntou se eu tenho namorado, respondi que não (Satisfeita a curiosidade? Depois dizem que homem não é fofoqueiro, ah tá!). Enquanto eu olhava-o falar me deu uma vontade incontrolável de beijá-lo (A boca dele é muito linda, nunca senti uma atração tão forte assim. Ainda bem que a moça está aqui, não sei o que aconteceria se estivéssemos sozinhos).  O trânsito começou a melhora (Ai que ódio! Logo agora? Por mim ficaria ali a noite toda).
Renato pulou a roleta, sentou na cadeira e religou o motor. Pediu para eu sentar no primeiro banco para continuarmos conversando (Ainda bem que tem o vidro que nos separa). Indagou por que estou solteira (Que pergunta difícil). Acabei contando um pouco sobre a minha vida amorosa (Se eu contasse tudo a conversa duraria dias, isso se ele não saísse correndo antes). A moça terminou de falar no celular e sentou atrás de mim. Renato disse a ela que eu falei que quero um namorado (O quê? Quando eu disse isso? Além de fofoqueiro inventa coisas).
Ela disse que fazemos um casal bonito e quando resolvermos casar fará os papéis da cerimônia religiosa, pois trabalha na secretaria da Igreja São Tiago em Inhaúma (Oi? Como assim casar, eu mal conheço ele). Contou que é divorciada, tem três filhos e o rapaz com quem iria se encontrar trabalha com ela. Renato falou que no ano passado namorou três moças ao mesmo tempo, mas esse ano está quietinho (Safado! Vou fingir que acredito, tinha que ter um defeito). O papo evoluiu pra sexo (Estava demorando).
Renato contou suas peripécias sexuais e disse que não tem preferência por um tipo de mulher. Falou que não gosta de garota de programa, pois elas fingem (Ele não tem cara de que alguma vez precisou utilizar os serviços de uma). Disse que não tem nada demais mulher transar no primeiro encontro (Ele é bem moderno né?). Comentou sobre algumas namoradas que já teve (Ele é igual a mim, tem a “capivara amorosa extensa”). Falou que namorou durante quatro anos uma moça virgem, mas ela não quis perder a virgindade com ele (O quê?).
Ele contou que quando terminou o namoro ela deixou de ser virgem com o novo namorado e ele foi o segundo (Que estranho, eu gostaria de conhecê-la). A moça falou sobre a época que foi casada, falou que o ex marido tinha problemas com jogo e a traía (Que canalha!). Renato repudiou a traição e disse que tudo que se refere a sexo tem que ser feito com a parceira (Concordo plenamente). Ela falou que não faz sexo há muito tempo e ele ficou zuando-a (Sem graça). E que até então estava quieta revelei que sou virgem.
Renato não acreditou e disse que eu tenho cara de safada (Estou cansada de ouvir isso). Falou que a vida é muito curta e não devo deixar as minhocas comerem (Ah claro! Provavelmente ele quer ser a tal minhoca). Quando chegou ao Motel Free a moça contou que o pai e a irmã trabalham no Motel Itaóka. Ele disse que tem vontade de conhecer o Motel Free, falei que só conheço o Motel Show. Renato de olhou com cara de safado e perguntou se dei um show lá (Nossa ele tem as feições muito bonitas). Respondi que sou virgem, não freira (Morri de vergonha).
Ele comentou que as pessoas com o meu tom de pele costumam ser fogosas e quentes (Quem garante? Mas é claro que eu preciso do combustível certo para acender a minha fogueira, acho que com diesel pode ser bacana). Chegamos ao ponto final às 22 horas (Não acredito que fiquei duas horas no engarrafamento, passei a metade da noite dentro do ônibus). Renato disse que é para ficarmos no ônibus e voltarmos com ele (Mesmo que eu quisesse ir para a faculdade já deve estar fechada).

Na volta para cada passageiro que entrou no ônibus o Renato contou a história do engarrafamento (Por que não grava um vídeo e posta no Youtube?). A moça antes de descer na Nova Brasília desejou boa sorte a ele (Ah eu mereço! Um Cupido querendo zuar o meu plantão? Engraçado ela sabe os nossos nomes, mas não sei o dela. Se falou eu não prestei atenção, pois só tive olhos e ouvidos para o Renato). Ele disse que tem até o meu ponto para me convencer (Ah tá! De quê?). Deu-me o número do seu celular e anotei no caderno. 
Renato perguntou se vou ligar e pediu para eu ligar (Não deveria ser o contrário? Por que cismou comigo? Duvido que não tenha namorada). Ficamos conversando, quando chegou o meu ponto dei sinal e antes de descer falei:- Tchau. Ele também disse tchau. Após não sei quantas horas eu finalmente consegui chegar em casa (Que aventura!). Coloquei a roupa para secar no varal, tomei banho e retirei a maquiagem. Fiz um lanche, escovei os dentes e deitei. Nossa, o dia parecia que não teria fim. Espero que o Renato chegue bem em casa. Hoje vai ficar conhecido como a “Noite da Enchente”.

Sabe o Renato não é feio. É branco, magro, um pouco mais alto que eu, cabelo preto e olhos castanhos. Mas o que realmente fez o meu coração palpitar foi o olhar penetrante e o sorriso que chama atenção. Não acredito que isso está acontecendo e que ele deu mole para mim. Nem sei se essa história vai adiante, mas vamos com calma e deixar acontecer naturalmente, pois o que tiver que ser será. Posso sentir que muita água ainda vai rolar e não será de chuva.


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